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Uma breve análise do mistério trinitário a partir da obra de Santo Agostinho

A discussão acerca da Trindade já causou intensos debates ao longo dos séculos e, mesmo assim, o assunto nunca é esgotado. O entendimento cristão acerca do assunto é abordado com humildade, já que estamos diante de um mistério da fé. Isso não significa usar a fé como uma muleta intelectual para se esquivar do exercício do pensamento acerca do assunto mas, como ensina um dos grandes teólogos deste século, o papa emérito Bento XVI: “…a verdadeira ideia de mistério não é destruir a inteligência e sim possibilitar a fé como entendimento”.

O dogma trinitário não foi algo imposto pela Igreja, muito menos inventado por algum teólogo. Foi a percepção extraída das Escrituras, que foi ganhando corpo teológico com o passar dos anos, principalmente devido ao ataques vindo de adversários. O período Patrístico com os grandes concílios ecumênicos, principalmente Nicéia (325), Éfeso (431) e Calcedônia (451), juntamente com teólogos do período, foram cruciais para ajudar moldar o entendimento que temos hoje sobre a Santíssima Trindade.

Os pais apostólicos dos séculos I e II já traziam em seus escritos o ensino trinitário, em forma um pouco mais bruta e menos sofisticada, mas a Trindade esteve presente desde cedo nesse período. Inácio, Policarpo e Irineu já faziam a distinção entre Pai, Filho e Espírito Santo de forma Trinitária, mas sem ainda dar este nome. Na verdade, o primeiro a usar o termo Trindade (Trinitas) foi o apologista Tertuliano (160 A.D – 220 A.D) que, de forma semelhante a Agostinho, buscou preservar a unidade essencial de Deus. De fato, os escritos do nosso apologista de Cartago foram essenciais para moldar o linguajar latino da época acerca deste assunto teológico. Não seria pretensão alguma considerar Tertuliano o “patrono” da teologia trinitária.

De Trinitate, foi uma obra escrita por Agostinho entre os anos de 400 – 416, época de intensos debates acerca das verdades da fé cristã. A falta de uma sistematização teológica levou muitas pessoas a desenvolverem suas próprias explicações acerca de assuntos não tão auto evidentes nas Escrituras, e a relação entre as pessoas da trindade não ficaria imune a especulações.

Mas conseguimos enxergar ainda mais longe nos ombros dos gigantes que fizeram parte do período pós-Niceno, como Atanásio de Alexandria, os pais Capadócios (Basílio de Cesareia, Gregório de Nazianzo e Gregório de Nissa) e nosso grande mestre autor da bela obra objeto de nosso estudo, Santo Agostinho.

Partindo de uma crença básica, “Só existe um Deus”, muitas pessoas enxergavam na Trindade um politeísmo disfarçado, e buscavam meios de evitar esse “erro”. Com base nisso, o modalismo, sabelianismo, adocianismo e outras heresias surgiram, não na tentativa de destruir a fé propositalmente, mas de uma base errada de pensamento sobre Deus, tentando preservar o que eles consideravam um monoteísmo saudável.

Agostinho, fazendo jus a sua fama, foi constrangido a escrever sobre o assunto, a fim de elucidar a questão teológica que vinha causando muitas discussões e divisões na Igreja da época.

Ele começa fazendo a principal definição teológica, que uma vez entendida, abrem-se as portas para uma melhor compreensão do assunto. Em suas palavras: 

Empreendermos a tarefa que nos pedem, e assim demonstraremos que a Trindade é um só e verdadeiro Deus, e quão retamente se diz, se crê e se entende que o Pai, o Filho e o Espírito Santo possuem uma só e mesma substância ou essência.

Assim como a maioria dos cristãos de sua época, Agostinho parte da definição monoteísta “Só há um único Deus”, porém, aplicando as definições do Concílio de Nicea (325), ele reafirma a consubstancialidade (homoousios) de Deus. Este termo provém da junção de ὁμός (homos’)’, que significa “o mesmo”, e ούσιος (ousios), proveniente de οὐσία (ousía), que significa substância ou essência. Assim, o termo tem o sentido de “da mesma substância, com a mesma essência”.

Com esse conceito já estabelecido sobre a “substância ou essência” de Deus, Agostinho agora inicia a explanação com outro conceito importante, o de pessoa (prosopon).

Ele afirma:

Não são, portanto, três deuses, mas um só Deus, embora o Pai tenha gerado o Filho, e assim, o Filho não é o que é o Pai. O Filho foi gerado pelo Pai, e assim, o Pai não é o que o Filho é. E o Espírito Santo não é o Pai nem o Filho, mas somente o Espírito do Pai e do Filho, igual ao Pai e ao Filho e pertencente à unidade da Trindade.

Contudo, a Trindade não nasceu da Virgem Maria, nem foi crucificada sob Pôncio Pilatos, nem ressuscitou ao terceiro dia, nem subiu aos céus; mas somente o Filho. A Trindade não desceu sob a forma de pomba sobre Jesus batizado (Mt 3,16), nem no dia de Pentecostes depois da ascensão do Senhor, vindo do céu como um ruído semelhante ao soprar de impetuoso vendaval e, em línguas de fogo, que vieram pousar sobre cada um deles; mas somente o Espírito Santo (At 2,2-4). A Trindade não fez ouvir do céu: Tu és meu Filho (Mc 1,11), quando Cristo foi batizado por João e no monte quando com ele estavam três discípulos (Mt 17,5); nem quando soou a voz que dizia: Eu o glorifiquei e o glorificarei novamente (Jo 12,28); mas somente a voz do Pai foi dirigida ao Filho, se bem que o Pai e o Filho e o Espírito Santo, como são inseparáveis em si, são também inseparáveis em suas operações.

Perceba que ao dizer que “a Trindade não nasceu da Virgem Maria, nem foi crucificada […] não desceu sob a forma de pomba sobre Jesus batizado (Mt 3,16), nem no dia de Pentecostes […] não fez ouvir do céu: Tu és meu Filho (Mc 1,11), quando Cristo foi batizado por João…”. Agostinho deixa claro que existem três pessoas diferentes sendo retratadas, o Pai, o Filho e o Espírito Santo.  Mas como definido anteriormente, eles apesar de serem três pessoas distintas, possuem a mesma substância ou essência, portanto, a mesma essência divina que há no Pai, é a do Filho e do Espírito Santo. Eles são idênticos em substância, diferentes como pessoas, por isso são manifestos de formas distintas nas Escrituras.

É comum cair no erro modalista, que afirma que essas três pessoas são apenas o mesmo Deus que se manifestando de três formas diferentes. Isso leva a conclusões lógicas absurdas, que inclusive podem afetar e destruir processo de salvação em Cristo. Os modalistas mutilam a personalidade do Pai, do Filho e do Espírito Santo com a doutrina das “manifestações”. 

Perceba que um conceito errado pode levar a toda uma má compreensão de Deus, fazendo com que doutrinas solidamente firmadas nas Escrituras, como a eternidade de Cristo e sua encarnação sejam destruídas. 

Entendendo o conceito de substância e pessoa, o caminho para o entendimento acerca da Trindade fica mais suave. 

Agostinho continua gastando sua pena construindo argumentos que sustentam tudo isso que foi falado. A consubstancialidade entre as três pessoas a Trindade vai sendo demonstrada ponto a ponto, e sempre tendo as Escrituras como base. Como não há espaço para abordar toda essa questão, separei algumas observações.

O Pai é maior que o Filho?

Dizem que o Filho é inferior ao Pai, porque está escrito e o disse o próprio Senhor: O Pai é maior do que eu (Jo 14,28). A verdade, porém, mostra que neste sentido o Filho é inferior a si mesmo. Como não há de ser inferior a si mesmo aquele que “esvaziou-se de si mesmo, e assumiu a condição de servo? (Fl 2,7). Recebendo a forma de servo, não perdeu a forma de Deus, na qual era igual ao Pai. Portanto, revestido da forma de servo, não ficou privado da forma de Deus, pois, tanto na forma de servo, como na forma de Deus, ele é o Filho Unigênito de Deus Pai, igual ao Pai na forma de Deus, e mediador de Deus e dos homens, o homem Cristo Jesus, na forma de servo. […]

Por isso, a Escritura afirma, não sem razão, ambas as coisas, ou seja, que o Filho é igual ao Pai e o Pai é maior que o Filho. Não há, pois, lugar à confusão: é igual ao Pai pela forma de Deus, é inferior ao Pai pela forma de servo.

O bispo de Hipona rejeita completamente a ideia de hierarquias dentro da Trindade, um tipo de subordinacionismo, onde uma pessoa é maior, no sentido de mais importante ou divina, do que a outra. 

Para enfatizar a questão e explicar melhor o relacionamento entre o Filho e o Pai, Agostinho complementa:

“Na forma de Deus [Jesus], criou todas as coisas (Jo 1,3); na condição de servo, nasceu de uma mulher, sob a Lei (Gl 4,4). Na forma de Deus, ele e o Pai são um (Jo 10,30); na condição de servo, não veio para fazer sua vontade, mas a vontade daquele que o enviou (Jo 6,38). Na forma de Deus: Assim como o Pai tem a vida em si mesmo, também concedeu ao Filho ter a vida em si mesmo (Jo 5,26); na condição de servo: Minha alma está triste até a morte, e: Pai, se é possível, que passe de mim este cálice (Mt 26,38.39). Na forma de Deus: Este é o Deus verdadeiro e a vida eterna (1 Jo 5,20); na condição de servo: Foi obediente até a morte, e morte de cruz (Fl 2,8).”

Vemos com clareza que colocar Jesus como inferior ao Pai é um erro que não se deve cometer. Agostinho reafirma todo o ensino cristão, firmado e confirmado nas Escrituras, amparado pelos Pais da Igreja e outorgado como regra de fé nos primeiros concíclios ecumênios, de que Cristo é Deus. Ele é ao mesmo tempo Filho do Homem, pela forma de servo sofredor, e Filho de Deus, como Logos eterno e Senhor de toda criação.

Para prevenir o erro que se postular uma exaltação individualizada da Trindade, no sentido de separar do todo uma de suas partes isoladamente, Agostinho diz que a Trindade é “inseparável em si mesma, se manifesta separadamente pela figura de criaturas visíveis, e como a atuação indivisa da Trindade existe em cada um dos seres que servem para representar ou o Pai, ou o Filho ou o Espírito Santo.”

Ou seja, onde há o Pai, está a Trindade, assim como em relação ao Filho e ao Espírito Santo, pois “as três Pessoas são um só Deus, grande, sábio, santo e bem-aventurado.”

Portanto, vemos que o assunto é vasto e complexo, e que muito já se empenharam em expô-lo de forma adequada ao longo do tempo. E dado o conjunto das circunstâncias e da obra, Agostinho o fez de forma mais brilhante.

De Trinitate é um monumento teológico, uma obra riquíssima e de grande valor para a história da teologia cristã. Não é de se admirar que Santo Agostinho seja considerado por muitos, por mim inclusive, o maior teólogo da história do cristianismo.

Analisar profundamente uma obra desse calibre é uma empreitada para poucos, reconheço minha ignorância e incapacidade em fazê-lo, mas espero que de alguma forma ter contribuído para o esclarecimento acerca de um assunto tão complexo quanto esse a partir da obra do nosso gênio africano.

“Senhor, único Deus, Deus Trindade, tudo o que disse de ti nestes livros reconheçam-no os teus; e se algo há de meu, perdoa-me e perdoem-me os teus. AMÉM.”

Ramon Serrano
Do ateísmo ao cristianismo reformado. Salvo pela graça e na busca pelo aprendizado para “levar todo pensamento cativo a Cristo.” (2Co10:5) Casado, membro da Igreja Batista da Palavra, cristão por confissão e defensor de Cristo por amor.

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