O prazer dissipa e entorpece [a consciência]. O sofrimento é o aguilhão que a desperta.
O Mal e o sofrimento, de Louis Lavelle
Com uma bela obra de filosofia moral, Lavelle nos convida a reflexão sobre algo que aflige a todos nós, o sofrimento.
Olhamos para o mundo e vemos que ele não é o que deveria ser. Dor, lágrimas e sofrimento invadem nossa vida e transformam tudo em um grande abismo, onde parece não haver esperança, consolo ou descanso. Nossa alma é apertada por todos os lados com as angústias e sofrimentos que a vida trás.
Experimentamos o mal o sofrimento desde de que nascemos, essa parece ser nossa condição natural. Como compreender as marcas da nossa própria miséria? Como extrair sentido daquilo que parece ser um limbo de aflição sem fim?
Lavelle enxerga o mundo também como um sofrimento, mas as marcas que tal dor causa em nós, nos permite transcendê-lo. Se o sofrimento é uma condição inerente a vida do homem, resta a nós fazer o que de melhor podemos fazer para encará-lo de frente.
O autor nos diz que ” é ao próprio sofrimento que devo conferir um sentido que o penetre e transfigure”, coisa árdua porém necessária é extrair sentido da dor, uma vida onde não há sentido em meio a dor, leva ao desespero total.
A consciência de que sofremos é o que nos desperta, é o que nos torna partícipes do Eu, é o que nos permite penetrarmos em nós mesmos e conferir a nossa alma a elevação espiritual em meio a um caos externo.
Lavelle trabalha com antíteses interessantes, dizendo que é na ausência que encontramos a presença, na escuridão que vemos a luz, na solidão encontramos a comunhão, que tudo isso nos leva a um aprofundamento interior, onde conseguimos perceber a nossa realidade, a nossa essência espiritual.
O sofrimento significa estar conectado a outros seres, só sofremos porque amamos, pois a indiferença cegaria nossa consciência. Como o autor nos diz ” a possibilidade de sofrer mede a intensidade e a intimidade dos laços…”. Pelo seres que mais amamos enfrentamos dores, assim como por eles desfrutamos maiores alegrias.
Mas também apresenta um paradoxo, pois nos mostra que os “laços que nos unem a vida podem estar preste a se romper…” Já que “ a dor é uma ameaça, já que existe nela uma evocação da morte.” A morte para os que sofrem pode ser um apaziguamento, pois faz cessar a dor. E nisso encontramos a nossa contradição. Pois o autor nos diz que o sofrimento pode ter o papel de nos mostrar todo o apreço que temos a vida, no momento em que pensamos que ela poderia nos ser retirada.
A dor nos molda, nos desperta, nos faz seres melhores dependendo do nosso desprendimento de encará-la. Assim como “o amargor dos remédios cura os males do corpo, assim também é preciso que a amargura da dor seja a cura dos males da alma.” Ao invés de se deixar consumir pela resignação e infelicidade, devemos assumir a responsabilidade de sofrer com regozijo, de encarar a realidade e extrair do caos o sentido para nos mover.
Para o autor, além de ser necessário encontrar sentido em meio ao sofrimento, o próprio sofrimento é necessário ao bom viver. Pois uma vida regada somente a prazeres, entorpeceria a consciência. Pois como ele afirma “ quem elimina de si mesmo a faculdade de sofrer, também elimina a de fruir.”
A leitura desse livro é de uma belíssima riqueza espiritual, onde dialogamos com o tema do sofrimento não de modo a ignorá-lo ou evitá-lo, mas de modo a transcendê-lo. Pois seja como cristão ou não, o sofrimento está presente em nossa vida, e a maneira como o enfrentamos pode ser muito importante. Pois, seguindo as palavras do nosso Senhor Jesus, que diante da dor não esmoreceu, temos por certo que “no mundo tereis aflições, mas tende bom ânimo, eu venci o mundo.” – João 16:33
