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Cultivar e Guardar: Esboços sobre liderança cristã

Essas reflexões surgiram pouco tempo após o fim de uma trajetória de quase três anos (que pareceram dez) numa empresa de tecnologia. Logo após minha saída, iniciei uma verdadeira maratona de conversas. Diferentes pessoas, diferentes funções, diferentes sotaques e diferentes empresas como um todo. No entanto, uma pergunta apareceu de forma unânime em todas as conversas: como foi sua experiência como líder? Apesar de ter respondido ao questionamento algumas dezenas de vezes, creio não ter feito jus ao que realmente acredito sobre o assunto. Creio também que um momento de mudança e de fechamento de ciclos como esse é também uma oportunidade para grandes reflexões. Por isso, tomarei a tarefa de esboçar as bases de uma filosofia pessoal do tema de liderança. 

Quem sou eu?

O leitor atento notou que o título carrega a palavra “cristã”, qualificando o tipo de liderança que tratarei aqui. “Liderança Cristã não é aquela que se exerce num ambiente religioso?” – você pode perguntar – “Não seriam os Pastores, Diáconos, Presbíteros e afins os líderes cristãos?”. Por um lado sim, mas existe muito mais do que isso. 

De algum modo sou um dos herdeiros da noção de Weltanschauung (“visão de mundo”) cunhada por Kant e absorvida por diversos pensadores após ele. Compreendo a visão de mundo como todo o conjunto de conceitos e valores que norteiam todo o engajamento com o mundo ao nosso redor. Em última instância, ela é construída por diversas esferas de influência (experiências pessoais, família, comunidade, sua nação ou até o momento histórico vivido). Se olharmos para o Cristianismo não somente como um sistema religioso mas como formador de uma visão de mundo, fica clara a importância de qualificar a minha visão de liderança como cristã

Como um cristão, todas as minhas atividades e minhas interações com os outros (sejam elas como contribuidor individual ou como líder) passam pelas lentes da minha fé. Se o João é cristão e João é um líder, João deve ser um líder cristão. Ser cristão é algo muito mais basilar em minha vida do que o chapéu de líder que posso vir a vestir. Vou um passo mais longe, e digo: João é um cristão líder, nessa ordem.

Já e ainda não

Apesar disso, como muitas coisas do Cristianismo, vivo numa tensão entre o que deveria ser e o que eu sou. Cristãos genuínos sabem que foram salvos por Cristo da culpa do pecado, mas ainda convivem com a presença do mesmo na sua vida. Sabemos que somos ao mesmo tempo justos e pecadores (simul justus et peccator, diria Lutero). 

Da mesma forma, existe uma tensão entre o líder que sou e aquele que gostaria de ser. Ao ser questionado sobre minha experiência como líder, consigo refletir e encontrar muitos acertos e falhas. Não me refiro apenas a aspectos técnicos, sobre a arquitetura X ou Y escolhida, nem sobre os processos adotados no time A ou B. Pessoas me preocupam muito mais do que projetos. Por isso, tenho plena consciência: sou um cristão líder, mas de maneira alguma completo. É preciso caminhar e aprender.

A questão que segue é como aprender? Certamente a Bíblia não dá respostas fáceis de como um desenvolvedor startupeiro deve desempenhar um papel de líder num time de tecnologia. No entanto, um dos pilares centrais da minha visão de mundo é o da veracidade e da aplicabilidade das Escrituras. Creio que,  apesar de nem todas as coisas nelas estarem igualmente claras, elas claramente apresentam quem Deus é e nos apontam como Ele deseja que vivamos para glorificá-lo. Assim, cavando mais fundo é possível encontrar alguns princípios bíblicos que iluminem parte nossa jornada nas partes mais obscuras.

Não faltam pessoas na narrativa bíblica que possam ser consideradas como líderes. Abraão, Isaque, Jacó, Moisés, Davi e os diversos profetas foram grandes figuras na liderança de suas famílias e seu povo. Contudo, suas histórias não foram registradas como padrões a serem seguidos, per se. Todos eles eram pecadores! Abraão, Isaque e Jacó mentiram. Moisés irou-se com as reclamações do povo que liderava e desobedeceu a ordem de Deus. Davi planejou a morte de outro homem por cobiça. Ou seja, foram líderes falhos, assim como eu sou e como sempre serei. 

Apesar disso, conseguimos ver a mão de Deus guiando suas vidas. Mesmo em suas falhas o Senhor os usou para o bem daqueles que estavam sob sua liderança. Ora, se o fator comum no sucesso de líderes que são falhos é a presença do Senhor, o mais prudente parece ser buscar do próprio Deus o que ele deseja de um líder, não? Curiosamente, conseguimos isso a partir de uma história muito negligenciada: a da Criação. 

Considere Gênesis 2:15: “Tomou, pois, o SENHOR Deus ao homem e o colocou no jardim do Éden para o cultivar e o guardar”. Esse trecho é parte do relato bíblico da Criação, no qual o homem é colocado em meio a criação com uma tarefa clara: cultivar e guardar. Mas o que isso significa? No contexto geral dos primeiros capítulos de Gênesis temos Deus como aquele que havia realizado todas as obras até ali. Foi Ele quem criou tudo pela sua poderosa mão, por meio de si e para si. Mas aqui, Deus decide não apenas colocar o homem no meio do resto da Criação, mas compartilhar parte da responsabilidade com ele. 

De alguma forma, podemos dizer que Adão foi colocado na terra como um gestor, alguém com uma autoridade derivada e que deveria cuidar daquilo que estava sob sua responsabilidade. De que maneira? Cultivando e guardando. 

Os dois pilares

Não penso que as palavras do texto bíblico tenham sido escolhidas ao acaso. Pelo contrário, creio que até mesmo ao escolherem as palavras que usariam em seu texto os autores bíblicos eram inspirados pelo Espírito Santo (inspiração verbal). Existe sentido na escolha das palavras utilizadas para esclarecer a posição do homem como um líder na criação. Assim, a pergunta que segue é: o que significa cultivar e guardar? 

A palavra no texto hebraico que é traduzida aqui como “cultivar” (עָבַד, abad), carrega o sentido de trabalho, de um laborar para algo 1Brown-Driver-Briggs 713.1 . No caso de Gn 2:15, ela implica o trabalho de Adão cuidando do jardim no qual foi posto (por isso é traduzido como cultivar).  Em seu sentido primário, a palavra cultivar nesse contexto significa trabalhar em algo para que algo progrida, cresça, floresça. Essa era uma das tarefas de Adão: trabalhar para desenvolver. Um segundo sentido que abad pode transmitir é o de “servir” 2Ross, A. P. (1985). Genesis. In J. F. Walvoord & R. B. Zuck (Orgs.), The Bible Knowledge Commentary: An Exposition of the Scriptures (Vol. 1, p. 31). Victor Books. . De certo modo, todo trabalho do homem também é serviço e adoração a Deus 3Cf. Doutrina da Vocação, presente na teologia da reforma protestante desde o século XVI. e o trabalho manual e primitivo do homem no Jardim não difere do nosso nesse sentido.

Já a palavra “guardar” (שָׁמַר, shamar) 4Brown-Driver-Briggs 1036.1 , no contexto de Gn 2:15 nos revela que além de trabalhar para o progresso e o bem da criação, o homem deveria cuidar dela de maneira especial para que ela fosse mantida. Shamar também pode significar proteger e observar. Desse modo, “guardar” significa mais do que apenas colocar cercas em volta de algo. Deve ser um cuidado intencional e atento, que além de trabalhar, protege e preserva o objeto do seu trabalho.

Com isso em mente, temos dois pilares que podem ser facilmente contextualizados para o trabalho de um líder em tecnologia. Cultivar e Guardar não são apenas relevantes quando o assunto é jardinagem, colheita ou trabalho manual. São direcionadores valiosos para a visão de mundo de qualquer cristão em uma posição de liderança. Vejamos como isso se aplica de forma prática:

Cultivando e Guardando

Com base no que já vimos, como um cristão líder pode cultivar aqueles que Deus lhe deu para liderar? Em primeiro lugar, tendo em mente que o papel do líder não é o de fazer crescer, e sim o de dar um ambiente propício para isso. Um jardineiro pode cuidar do solo ao seu redor, adubar e regar, mas não pode fazer uma planta crescer. Da mesma forma, o trabalho de cultivo de um líder é o de proporcionar um solo fértil para que as pessoas cresçam. 

Como um líder técnico pode cumprir essa tarefa? Um dos modos é removendo espinhos e ervas daninhas que atrapalham o desenvolvimento, os famosos blockers. Apesar das soluções serem situacionais, também se faz através de documentação ou de processos que impulsionam as pessoas ao invés de restringi-las, por exemplo. Oferecer oportunidades técnicas de aprendizado para diferentes níveis (desde os mais juniores até os mais seniores) e de colaboração também é uma forma muito eficiente de fomentar o crescimento do time. Além disso, o microgerenciamento pode sabotar todo o esforço de crescimento, do mesmo modo que mexer demais numa planta pode a fazer morrer. Existem muitas outras maneiras, mas é necessário ser intencional.

Já um líder de pessoas (gestores, em geral) ajuda alguém a crescer entendendo exatamente que tipo de nutrientes ela precisa. Pessoas diferentes precisam de níveis diferentes de autonomia, desafios, rotina, reconhecimento, etc. 5Recomendo um exercício/jogo chamado “Moving Motivators” de Jurgen Appelo, focado exatamente em entender os motivadores de cada pessoa num time.  Identificar os motivadores de cada um e o como proporcioná-los no dia a dia é um ponto crucial para a felicidade e desenvolvimento das pessoas de um time. Outro modo é pela mentoria: líderes de pessoas geralmente têm mais senioridade que seu time e, por isso, podem compartilhar suas experiências, gerar conexões e ajudar a desenhar um caminho de crescimento para cada um.

Outro ponto para fomentar o crescimento, tanto técnico quanto do lado de pessoas, é a existência de bons feedbacks. Assim como quem cuida de um jardim não apenas joga mais água sobre as folhas de uma planta que está fraca, os feedbacks também devem ser bem pensados e construídos. Feedbacks precisam levar em conta o contexto, buscar a causa raiz, e serem relevantes. E, de forma lógica, tudo isso deve ser feito com gentileza. Afinal, o Cristão “deve ser brando para com todos, apto para instruir, paciente” (2Tm 2:24).

Já o  “guardar” aparece no papel de um cristão líder de algumas formas, mas a primeira e maior delas é com um genuíno interesse pelo bem-estar das pessoas. É um papel de todos os líderes, técnicos ou não, criarem um ambiente seguro para que as pessoas se desenvolvam e cresçam. A área de tecnologia, no geral, é bastante segura fisicamente, mas o caso não é o mesmo quando se trata de segurança psicológica. 6Faltariam-me dedos para contar os casos de burnouts relatados por conhecidos nos últimos três anos. Pessoalmente, tive minha cota de momentos de total estafa mental mais de uma vez. É o papel do líder zelar pela saúde mental de seu time, buscando um ritmo de trabalho saudável, prazos factíveis e um ambiente em que errar e aprender seja seguro (o que é parte do desenvolvimento).

Adicionalmente, é preciso criar um ambiente no qual as pessoas sejam respeitadas e tenham tranquilidade para desenvolver seu melhor. Isso engloba todos os tipos de pessoas, até mesmo aquelas que vivem de acordo com uma visão de mundo contrária ao Cristianismo. Um cristão deve crer que todos foram criados à imagem e semelhança de Deus e, por carregarem esse imago Dei, todas as pessoas têm valor. Se o valor de uma vida e de uma pessoa fosse removido pela mancha do pecado, nenhum de nós teríamos valor algum. Desse modo, é papel de um líder criar um ambiente que trate a todos com dignidade e no qual todos possam desenvolver sua vocação. 

Pensamentos finais

Existe muito mais a ser falado, e não espero esgotar o tema aqui. Uma teologia bíblica da liderança precisa compreender muitos outros textos e tratar dos temas difíceis com cuidado. Contudo, existem algumas conclusões claras até aqui e que já têm influenciado meu pensamento, tanto como líder quanto como liderado. A primeira delas é a de que esse padrão é inalcançável como ser humano. Terei de conviver tanto com os erros dos outros que me lideram quanto com os meus próprios quando líder. Daí surge uma necessidade de aprender a ser gracioso com os erros dos outros e consciente dos meus.

A segunda é que essa tarefa de cultivar e guardar atinge seu ápice em Jesus, o próprio Deus feito homem. Ele, sendo o Adão perfeito, é o líder perfeito também. E se entendemos algo de seu modo de agir, é o de líder servo (Mt 20.26-28). Assim, se a vida cristã é sobre imitar ao Cristo que nos salvou, um cristão líder deve liderar servindo.

Assim como minha caminhada cristã, a minha caminhada como líder está só no começo. Ainda há muito o que aprender e muito o que ser cultivado em mim – pelo Espírito Santo, por meio dos meus líderes. Oro que essas reflexões possam contribuir contigo, e que você possa ser cultivado e guardado, mas também cultivar e guardar. Mas, muito mais importante do que isso, que você possa experimentar a alegria de enxergar o mundo através das lentes de um pecador redimido pela Graça. A Graça do maior líder de todos, o Senhor Jesus.

João Lucas Lucchetta
João Lucchetta – também conhecido como Luke – é co-fundador do Projeto Reflita. Trabalha como Desenvolvedor de Software na área financeira e tem interesse em assuntos como Cosmovisão Cristã, Teologia Puritana e Filosofia da Tecnologia.

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