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Review: “É preciso duvidar de tudo”, de Søren Kierkegaard

“É preciso duvidar de tudo” (encontre na Amazon) é um texto inacabado de Søren Kierkegaard sob o pseudônimo de Johannes Climacus. De caráter autobiográfico, o pequeno livro conta a história de um jovem Climacus que começa a estudar filosofia, sendo rapidamente confrontado com a ideia cartesiana, posteriormente colocada por Hegel como marca de uma nova idade da filosofia, de que é necessário duvidar de tudo.

Johannes Climacus era um jovem solitário que gostava de refletir isoladamente sobre a vida. Nas palavras do autor: “era e permaneceria estranho ao mundo”. Tinha sua própria forma de pensar independente da posição alheia. Vale ressaltar que, embora em um ambiente idealista, nunca havia questionado o realismo das coisas ao seu redor. Até que começou a ouvir opiniões diferentes da sua e começou a se questionar se não era ele quem estava errado.

A partir de então, começa a se envolver e ouvir o que os outros estudantes tinham a dizer. O livro é marcado pela busca de Johannes Climacus a entender melhor três proposições importantes em sua época: 1) A filosofia começa pela dúvida; 2) É preciso ter duvidado para poder filosofar e 3) A filosofia moderna começa pela dúvida. Dentro desses 3 tópicos, o personagem fica confuso com algumas possíveis contradições. Por exemplo: Se o item 1 e o 3 estiverem errado, não houve filosofia antes da moderna? Se é preciso duvidar de tudo, isso inclui duvidar de quem afirma tal coisa?

Como não poderia ser diferente, o principal interesse de Kierkegaard parece ser entender como essas proposições podem ser aplicadas à vida de seu personagem. Neste ponto outras três proposições se juntam à reflexão do estudante de filosofia, que é a ideia de que o começo da filosofia ser triplo: absoluto, objetivo e subjetivo, pensamento este influenciado por Hegel. Como era de se imaginar, o autor foca na questão subjetiva, uma elevação do sujeito em busca do conhecimento acima do mero sentido, diferente da dúvida que questionava dos sentidos.

É preciso duvidar de tudo

‘É preciso duvidar de tudo’ é um conto inacabado de Kierkegaard sobre as inquietações do jovem Climacus, arrebatado por uma insólita paixão pela Filosofia.

Editora: WMF MARTINS FONTES
Número de Páginas: 134

Ligando a dúvida com a parte subjetiva, a grande questão que paira é se, assim como numa fórmula matemática, a descoberta da necessidade de duvidar independe de quem chega à essa conclusão, ou se é necessário que o pensador seja uma autoridade no assunto. E, mesmo se fosse feita por um grande filósofo, para os outros a aceitarem seria necessário fé no que este lhes diz. O interessante disso é que, um professor poderia, por um lado, exigir que seu aluno duvidasse de tudo e, ao mesmo tempo, ficar ofendido por ser questionado. Então, por um lado Johannes Climacus gostaria de alguém para guiá-lo, mas por outro entende que a aceitação da proposição o faz ficar sozinho. Essa é um dos grandes paradoxos que Kierkegaard levanta sobre o tema.

Na segunda (e última parte, já que o livro não foi finalizado), Kierkegaard trabalha como a consciência se exercita na busca do conhecimento. É uma parte mais profunda onde vemos debates sobre a realidade, percepção imediata, linguagem e idealidade. As duas primeiras em um aspecto objetivo e as duas últimas subjetivo. A junção dos dois, do mundo exterior com o interior, é que possibilita a dúvida. E a consciência só é possível quando se une a idealidade, a realidade e o eu pensante que questiona e determina a reflexão (união entre o imediato e a linguagem).

Muitas outras coisas de grande valor são discutidas no livro, mas tentei trazer os pontos que entendo como principais reflexões que o autor dinamarquês nos trás. Por meio de um esboço do apêndice, podemos perceber que o caminho provável que Kierkegaard iria trilhar era demonstrar o quanto a dúvida extrema traz consequências trágicas para seu personagem, que nunca conseguiu voltar à ver a vida como fazia anteriormente. Mas, infelizmente, essa parte não chegou a nós.

Rodrigo Galente
Formado em Administração pelo Mackenzie, Master in Divinity pelo Seminário Teológico Servo de Cristo e bacharel em filosofia pela Faculdade de São Bento. Presbítero da Igreja Batista da Palavra.

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