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Dostoiévski vs. Super-Homem

Este ano [2016] marca um século e meio desde que o grande novelista russo Fiódor Dostoiévski presenteou o mundo com “Crime e Castigo” (1866). Como romance, crime e castigo não é nem excitante nem uma leitura particularmente alegre. Tem um “final feliz”, eu suponho, mas é doloroso chegar até lá, e mesmo a resolução é dolorosa. É, acima de tudo, uma novela russa.

O protagonista, Raskolnikov, é um pobre e melancólico estudante que gasta muito tempo vivendo em sua própria mente. Ele se ressente do mundo ao seu redor, considerando a si mesmo um ser humano superior que não deveria ser limitado pelas preocupações éticas do senso comum. Ele tinha consigo mesmo que era um grande homem, um benfeitor, um líder carismático.

Convencido de sua superioridade diante das leis de Deus e do homem, Raskolnikov brutalmente assassina uma penhorista e sua irmã, supostamente para roubar seu dinheiro, mas em última análise porque ele se sentia no direito de fazê-lo. Eventualmente, entretanto, ele descobre que não pode facilmente enganar sua consciência. Ele confessa e é exilado na Sibéria, mas lá, acompanhado pela santa Sônia, ele encontra paz e perdão.

Crime e Castigo é corretamente aclamado por sua profundidade psicológica e realismo, mas tem outra reivindicação à fama que exige leitura, especialmente para os cristãos preocupados com os efeitos devastadores do relativismo moral no mundo moderno. Assim como Alfred Lord Tennyson, no seu épico poema In Memoriam (publicado em 1850 mas escrito principalmente nos anos 1830) lutou contra as implicações da seleção natural darwiniana mais de uma década antes da publicação de A Origem das Espécies (1859), assim Dostoiévski, em Crime e Castigo, expôs os perigos e as desilusões da teoria do übermensch de Nietzsche mais de 20 anos antes de Nietzsche introduzir ao mundo esta figura em Assim Falou Zaratustra (1883).

O Super-Homem de Nietzsche 

De acordo com Nietzsche, o übermensch (alemão para super homem ou além do homem) é uma pessoa que encontra dentro de si mesmo a coragem para sacudir as correntes da moralidade da classe média – os padrões éticos e morais “impostos” em nós pela religião. Enquanto Marx iria dispensar a religião como “ópio do povo”, Nietzsche viu isso como uma escravidão ética, uma ferramenta usada pelas pessoas fracas para controlar as fortes.

Destemido dos códigos e superstições religiosas, o übermensch sobe acima das estruturas criadas pelos homens – se move acima do bem e do mal – para afirmar sua vontade de poder. Somente um indivíduo que se liberta dessas estrutura pode liderar a sociedade adiante para um futuro glorioso. Ainda que não seja justo culpar Nietzsche por Hitler, sua teoria tem provisionado ampla justificação para líderes totalitários de qualquer posição política para encobrir seus atos de injustiça debaixo do disfarce de ferramentas para o avanço da civilização.

Em Raskolnikov, Dostoiévski nos apresenta um pretenso super-homem nietzschiano, alguém que não acredita que as regras se apliquem a ele, apesar de certamente esperar que os outros a sigam. O fato dele sentir a necessidade de justificar suas ações para si mesmo prova que ele é um ser ético no qual o clamor pela moralidade são obrigatórias. Ele pode considerar a si mesmo imune à punição legal, mas ele não pode escapar de seu juízo interno, a consciência que Deus colocou em nós. Raskolnikov sabe que ele cometeu um crime – e o conhecimento daquele crime demanda a existência de um padrão sobrenatural nem relativo nem feito pelo homem.

Como a dor sinaliza que algo está errado em nosso corpo, a culpa sinaliza que algo está errado em nossa alma. Mesmo quando tenta se convencer do status de super-homem, Raskolnikov está cercado de culpa e remorso. Um moderno terapista freudiano igualmente diria a ele que os seus sentimentos de culpa eram o problema, mas não são. A realidade da culpa é o fato que mostra a mentira do relativismo moral, aquela falsa crença de que o homem pode viver e escolher e se desenvolver em um mundo acima do bem e do mal.

A realidade da culpa é o fato que mostra a mentira do relativismo moral, aquela falsa crença de que o homem pode viver e escolher e se desenvolver em um mundo acima do bem e do mal.

LOUIS MARKOS

Ideias Consequentes

Está claro para mim que Dostoiévski viu como parte de sua missão como escritor avisar contra a tentação satânica que seria conhecida como o super homem de Nietzsche. Eu digo que isso está claro partindo da ideia de que 13 anos antes de “Crime e Castigo”, Dostoiévski iniciou “Os Irmãos Karamazov“, uma obra de arte que refuta o übermensch de um modo que nenhum tratado filosófico ou teológico poderia esperar fazer.

Fiodor Karamazov, um tolo voraz e depravado, é o pai de três filhos que incorporam, respectivamente, o lado material, intelectual e espiritual do homem: Dmitri, um soldados impulsivo e apaixonado; Ivan, um intelectual extremamente racional que rejeita a fé em Cristo e Aliêksei, um monge santo que tenta pregar para seu pai e seus irmãos atormentados.

Durante o curso da novela Fiodor é assassinado e a suspeita cai sobre a cabeça do esquentado Dmitri. No final, no entanto, nós aprendemos que Fiodor não foi assassinado por um de seus filhos legítimos, mas por um de seus filhos ilegítimos, o bastardo Smierdiakóv. Essa revelação aparece como uma surpresa para todos, incluindo o leitor, mas principalmente para Ivan.

Veja, por muitos anos o grotesco Smierdiakóv foi discípulo do niilista Ivan. Ivan o ensinou que não há e nem pode haver justiça ou verdade no mundo; de fato, se Deus está morto, tudo é permitido. Para Ivan, essa visão Nietzschiana da moralidade como puramente relativa e feita pelo homem não é muito mais do que um jogo intelectual. É verdade que ele fica angustiado sobre isso, mas não precisa colocar suas teorias acadêmicas em prática.

Mas não é assim com Smierdiakóv. Idolatrando seu meio-irmão, Smierdiakóv leva tudo que seu irmão diz como verdade absoluta e constrói sua própria visão de mundo invertida em volta disso. Se Ivan estiver correto e a moralidade é puramente relativa, então por que Smierdiakóv não deveria agir exatamente como Raskolnikov age em “Crime e Castigo”? Quero dizer, por que ele não deveria cometer um crime por sua própria motivação? Se ele não tem limite por nenhum conjunto moral ou código ético, o que o previne de matar o pai que ele detesta?

O nietzschiano moderno que lê “Os Irmãos Karamazov” vai consolar a si mesmo concluindo que Smierdiakóv representou de forma errada e perverteu o niilismo de Ivan. Mas isso não é como Ivan recebe o orgulho de Smierdiakóv e sua confissão sem remorso de como e porque matou seu pai. Ivan vê que suas teorias não são apenas culpadas; elas são falsas, más e inerentemente destrutivas.

Dostoiévski força Ivan a ver os frutos de suas crenças, a ver como um real übermensch se parece – não é belo, trágico e nobre (como Napoleão no exílio), mas pequeno, mal e grotesco. Como resultado deste autoconhecimento, Ivan renúncia seu ateísmo e abraça o Deus que anteriormente rejeitou. Parece que ideias têm de fato consequências.

Não isentos de cair

Nossa era pode pensar de si mesma como radicalmente democrática, mas nós não estamos isentos de cair na enganosa retórica e utópica promessa do übermensch. De fato, nós não estamos acima da possibilidade de nos tornarmos um. Vamos tomar cuidado, então, e tomar cuidado com os avisos de Dostoiévski, que estava presciente o suficiente para ver os perigos por trás da teoria que Nietzsche iria em breve propor.

Nossa era pode pensar de si mesma como radicalmente democrática, mas nós não estamos acima de cair na enganosa retórica e utópica promessa do übermensch. De fato, nós não estamos acima da possibilidade de nos tornarmos um.

LOUIS MARKOS

Existe – em cada um de nós – um presunçoso, mesquinho, ressentido Raskolnikov ou Smierdiakóv lutando para se mostrar.

Louis Markos
Dr. Markos é professor de Inglês e pesquisador em residência na Houston Baptist University. É uma referência no estudo da obra de C. S. Lewis e autor de mais de 15 livros, entre eles "De Aquiles a Cristo" e "Apologética para ao Século XXI"

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